A Huawei passou anos a tentar voltar a ser “normal” no mercado dos smartphones. Normal, aqui, significa vender em escala, lançar chips próprios sem pedir licença a ninguém e, já agora, voltar a crescer em receitas sem depender apenas de segmentos mais previsíveis. Em 2025, a empresa dá mais um passo. Pequeno, mas real. Como avançou o Huaweicentral,
O relatório anual de receitas de 2025 mostra uma Huawei a aproximar-se do seu pico histórico de 2020. Não é uma explosão. Não é um salto. É aquele avanço teimoso, de quem recupera terreno metro a metro. E o detalhe que está a puxar a narrativa, quer se goste ou não, é o regresso dos telemóveis 5G com Kirin.
Neste artigo vão encontrar:
O que mudou nas contas da Huawei em 2025
A Huawei fechou 2025 com receitas de 880,9 mil milhões de yuan (cerca de 126 mil milhões de dólares). É um crescimento de 2,2% face ao ano anterior, quando registou 862 mil milhões de yuan. Dito assim parece simples: cresceu pouco. Mas cresceu, e isso conta quando o contexto é o que é.
Mais importante: a margem de lucro indicada no relatório foi de 8,6% em 2025. Não é um número que apareça por acaso. Há disciplina, há investimento, e há uma estratégia que insiste em controlar mais peças da cadeia. Ou melhor, em voltar a controlar.

O alvo psicológico, e não só, continua a ser 2020: 891 mil milhões de yuan, o melhor ano de sempre da empresa em receitas. Em 2025, a Huawei fica a uma distância curta. Curta o suficiente para se falar em “quase”. E quando uma empresa viveu o que a Huawei viveu nos últimos anos, “quase” já é um statement.
O regresso do 5G (com Kirin) está a empurrar a narrativa
O relatório aponta para um motor claro: o regresso dos smartphones 5G com chips Kirin. Não é só marketing. Há um efeito real quando a empresa volta a colocar no mercado equipamentos com silício próprio, e não apenas em topos de gama para mostrar músculo, mas também em gamas mais acessíveis.

A Huawei tem reforçado essa mensagem em apresentações recentes, insistindo duas vezes, num lançamento da linha Enjoy 90, que fez um “regresso completo” ao mercado de smartphones. A frase é forte. E ao mesmo tempo vaga. Regresso completo onde, exactamente? Em volume? Em portefólio? Em capacidade de produção? A empresa não fecha a interpretação.
Ainda assim, há sinais concretos: os Enjoy 90 foram associados ao Kirin 8000 e ao HarmonyOS 6.0. E esse conjunto, chip + sistema operativo, é o tipo de combinação que a Huawei quer vender como prova de autonomia. Na prática, não é só um telemóvel. É uma peça de estratégia.
Consumer Business: crescimento contido, mas consistente
O segmento de consumo (Consumer Business) registou 344,5 mil milhões de yuan em 2025, uma subida de 1,6% face a 2024. É um avanço curto. Quase tímido. Mas é um avanço num segmento onde a Huawei precisa de ganhar confiança, canal, ritmo. E onde, nos últimos anos, a conversa foi muitas vezes sobre limitações, não sobre crescimento.
Meng Wanzhou, enquanto chairwoman rotativa, descreveu este caminho como uma superação de desafios “formidáveis” e apontou para um futuro “cheio de incerteza”. A palavra é essa: incerteza. Não é só isso, claro. Há ambição. Mas há também prudência.

R&D a ocupar quase um quarto do bolo: não é detalhe
A Huawei indica que o investimento em investigação e desenvolvimento representa 21,8% da receita total, com 192,3 mil milhões de yuan. É muito dinheiro. E é, ao mesmo tempo, uma escolha política e industrial: quando não podes depender do ecossistema global como antes, investes para construir alternativas, mesmo que isso doa na margem a curto prazo.
Parece simples, mas não é. Investir em R&D é fácil de anunciar e difícil de sustentar ano após ano, sobretudo quando a pressão para gerar receita rápida existe. A Huawei está a tentar fazer as duas coisas: recuperar o negócio de consumo e continuar a financiar tecnologia própria. Nem sempre isso corre com fluidez. Aliás, raramente corre.
“Regresso completo” e o que isso pode significar em 2026
Parte do discurso recente da Huawei aponta para uma fase seguinte: voltar a crescer com ambição global. Aqui, convém não misturar desejo com execução. Mas há um passo concreto mencionado: o lançamento global do Mate 80 Pro com o chip Kirin 9030 Pro. E, em paralelo, a empresa fala de vendas fortes na China.
Este ponto interessa por duas razões. Primeiro, porque a China continua a ser o campo de testes onde a Huawei consegue escala e margem para experimentar. Segundo, porque um lançamento global, mesmo que selectivo, é um sinal de confiança. Não quer dizer que esteja tudo resolvido. Quer dizer que a empresa quer voltar a competir fora da bolha doméstica.
O efeito nas receitas pode não ser imediato. Pode até ser irregular. Mas o relatório de 2025 já sugere uma tendência: a Huawei está a aproximar-se do recorde de 2020, devagar, sim, mas com um motor mais alinhado com o que a empresa sempre foi quando estava no topo. Smartphones fortes, chips próprios, e um ecossistema que tenta fechar o círculo.
E depois há 2026. A possibilidade de crescimento adicional é real, mas não automática. Depende da continuidade do regresso do 5G com Kirin, da capacidade de manter o ritmo de I&D e, claro, do mercado. O mercado muda de humor depressa. A Huawei sabe isso. Nós também.
Para quem acompanha Android e o mundo mobile, isto não é apenas uma história de números. É uma história sobre controlo tecnológico, sobre como se reconstrói uma linha de produtos e, talvez, sobre o que acontece quando uma empresa decide que “voltar” não chega. Tem de voltar com as suas próprias peças. Ou pelo menos tentar.
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