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[Hoje o Geek és tu] Globalização: Proximidade e exclusão num mundo digital

Hoje em dia somos exigentes no que toca á rapidez e facilidade em acedermos a informação, conhecimento, curiosidades, novidades e aos últimos desenvolvimentos da tecnologia. E se ainda existem muitos de nós que resistem e tentam preservar a doce e irresistível simplicidade de ler um livro ou um jornal, sentir as folhas por entre os dedos á medida que as letras vão dançando em frente dos nossos olhos, ou simplesmente dedicar umas horas do nosso dia para assistir a um filme numa sala de cinema, temos que admitir que é cada vez mais difícil alienarmo-nos á tentação de ler um livro em formato digital com um preço mais convidativo, ou descarregar um filme podendo vê-lo na hora, no conforto e descontração do nosso lar.

Vivemos em constante desafio e alerta pela mudança e mutação do mundo que se globaliza á nossa volta, sendo este um processo tão rápido e exigente que somos constantemente impulsionados a acompanhar esta tendência, sobre o risco de nos tornarmos “info-excluídos” e de perdermos o comboio do progresso. Por muito que por vezes nos sintamos tentados a fazê-lo, a nossa natureza humana, sempre ávida de conhecimento e informação, compele-nos a acompanhar este ritmo. Não podemos esquecer também os nossos hábitos consumistas, que são cada vez mais ávidos e exigentes em serem saciados. Esta nossa realidade é característica dos chamados “países desenvolvidos”, onde toda esta oferta está ao nosso dispor e nós apenas decidimos se a queremos adquirir ou não, mediante o nosso poder de compra. Á nossa disposição, temos também informação e comunicação a baixo custo que estamos habituados a utilizar e tomamos como garantidas, graças á preciosa liberdade de expressão de que felizmente dispomos. Mas este fenómeno globalizante não é assim tão simples nem tão linear, e afeta mais sectores do que aquilo que julgamos.

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Mundo Globalizado

Desde tempos imemoriais que sonhamos com uma sociedade justa, igualitária, com direitos e deveres definidos e onde a pobreza e a crueldade possam ser erradicadas de vez. Disso são testemunhos obras como A Republica de Platão e Utopia de Thomas Moore, ou até as mais diversas revoluções históricas que dinamizaram e construíram a nossa conjuntura tal como hoje a conhecemos. Delas podemos destacar a Revolução Francesa de 1789, a Americana de 1776, a nossa Revolução Liberal de 1820 e mais recentemente a revolução dos cravos em Abril de 1974.

Mas que relação poderão ter todos estes acontecimentos com a era digital e tecnológica em que agora vivemos? Têm efetivamente uma estreita ligação uma vez que nada surge isoladamente e os nossos dias são o resultado de um caminho que há muito vem sendo traçado pela mão dos nossos antecessores e pela ação de acontecimentos poderosos que alteraram toda a estrutura da linha de tempo.  Todos estes processos, adequados á época em que ocorreram, tiveram denominadores comuns baseados na luta por direitos inerentes á condição humana ou na resistência contra a submissão e exploração, mas mais que tudo, todas essas revoluções se pautaram pela batalha de substituir uma ordem considerada injusta, por uma nova, confrontando o poder instituído. Em todas, o acesso á informação e a comunicação de ideais e valores entre as pessoas, germinou e possibilitou esses acontecimentos, e é esse o combustível dinamizador de todas as mudanças, sendo essa mesma energia que hoje impulsiona toda a nossa realidade.

E se o nosso mundo foi pautado por tudo isto, outras realidades existem em que o mesmo não sucede. Poderá a globalização ser, um processo de aproximação entre todos nós, independentemente do país e cultura em que vivemos, ou pelo contrário, poderá  estar a criar um fosso cada vez maior entre os seres humanos?

Como em todos os temas, há os pontos positivos e negativos e analisar mas em termos muito gerais, a globalização é resultado de uma integração mundial, ou seja, uma integração de caráter global que abrange aspetos económicos, culturais e políticos.

Longe vai o final da década de 1960, quando a internet surgiu com o intuito de interligar dados de vários computadores mas só na década de 1990 é que a internet assumiu os contornos que hoje lhe conhecemos,  tornando-se acessível ao comum dos utilizadores. Foi descoberto um novo mundo de vantagens e facilidade. Informação, interatividade, relações pessoais, negociações, notícias, compras e outras necessidades do dia-a-dia ganharam um grande espaço na web. Este fenómeno pautou o inicio da globalização modificando completamente a sociedade e a forma de vermos o mundo.  As distâncias foram vencidas pela aproximação e contacto constante entre pessoas de diversos pontos do planeta. Cada vez estamos menos sós e cada vez temos menos tempo e disposição para estarmos a sós connosco e com os nossos pensamentos. Os estímulos externos assaltam-nos constantemente a atenção e até a nossa privacidade tem hoje um novo sentido e fronteiras. Existe todavia quem defenda que na realidade nunca estivemos tão sós e distantes uns dos outros. Esta dicotomia aparentemente contraditória espelha na perfeição aquilo que o mundo global nos pode oferecer, mas também aquilo que nos pode ser exigido em troca.

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Internet Messenger, de Buky Schwartz em Holon, Israel

Na História, este fenómeno apenas pode ser ligeiramente comparado á era das descobertas dos séculos XV a XVII, quando a Europa partiu em busca de novos mundos, encabeçada pelos reinos de Portugal, Castela e mais tarde França, Inglaterra e Países Baixos, porém nunca com a mesma magnitude. Na revolução digital, a ampliação dos mercados, das relações interculturais sociais e comerciais, transformaram o dia-a-dia das populações dos países desenvolvidos sendo um fenómeno relativamente atual e ainda muito pouco explorado e estudado quanto aos resultados e impacto que pode ter na nossa vida e na nossa existência, enquanto indivíduos e também enquanto elementos de uma sociedade global.

A era digital é pautada por uma mudança de hábitos dos consumidores sempre ávidos por novidades onde o comércio online explode transformando a forma como se compra, vende e negoceia, para além da baixa de custos de produção. A publicidade e propaganda acompanham este ritmo, aliciando á compra e á constante modernização e acompanhamento das atualizações pelos compradores. Neste prisma, seria seguro afirmar que a globalização é parte do capitalismo e por ele é explorada pelo apelo a um consumismo desmedido na maior parte dos casos, muito superior às nossas necessidades reais sendo igualmente um processo de integração do espaço mundial com um fluxo intenso de capitais, serviços e tecnologia entre países, interligando-os por transações económicas com grande volume de capitais.

Obviamente que quando falamos deste fenómeno, o benefício que automaticamente nos desperta a atenção é a facilidade com que as comunicações fluem, sendo hoje possível quase em tempo real, saber o que se passa do outro lado do mundo. As distâncias entre conhecidos e entes queridos encurtam-se com a utilização do Skype, do WhatsApp, FB Messenger e outras redes sociais que nos permitem estar em constante contacto, seja  por voz, imagem ou texto, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância. No reverso da medalha, existem também opiniões que defendem que esta mesma proximidade potencia também em segundo plano, um aumento da distância física entre as pessoas. Pela facilidade da comunicação á distância acaba por ser dispensada, cada vez mais, a proximidade e o encontro físico entre as pessoas. As relações tendem a tornar-se cada vez mais impessoais e virtuais ao invés de próximas e presenciais.

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Redes Sociais

Mas se a globalização permite proximidade e contacto entre as pessoas possibilitando uma maior confluência de troca de ideias e culturas, é também apontada como responsável por aumentar o fosso entre ricos e pobres. A exclusão digital é hoje um tema cada vez mais discutido, e as suas implicações e efeitos são cada vez mais visíveis na nossa sociedade. A dicotomia entre riqueza e pobreza é acentuada, as desigualdades sociais são gritantes e a realidade vivida por cidadãos de diferentes países é abismal. Há efetivamente uma grande parte de populações que não têm acesso a esta realidade digital, em muitos casos, e infelizmente, porque as condições básicas de sobrevivência não estão asseguradas e noutros casos devido a regimes políticos que não permitem o livre pensamento e expressão. Este fenómeno de partilha que presenciamos e vivemos só é possível em conjunturas e sociedades onde os consumidores têm poder de compra, liberdade política e estruturas económicas e financeiras que permitam o livre comércio. Mas ainda assim, dentro destas estruturas, as desigualdades económicas e sociais são tão acentuadas que a globalização acaba por se tornar num processo de exclusão apesar de camuflado como promotor da igualdade, onde admite que todos podem aceder a informação, conteúdos e equipamentos.

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Na verdade, o processo da globalização é desigual e muito subserviente de interesses focados no lucro e riqueza, apesar dos óbvios benefícios que traz na disponibilização e acesso a conhecimento, ofertas, informação e um sem limite de opções de entretenimento e cultura, até então inacessível às massas e ao cidadão comum. Ultimamente têm vindo a público notícias de exploração de mão-de-obra em fábricas de marcas muito conhecidas do grande público, onde trabalhadores nas suas fábricas sediadas na China e Índia, ou outros países considerados em vias de desenvolvimento, não têm condições e remunerações dignas, e por vezes nem idade ou saúde para trabalhar. Estas pessoas provêm de realidades sociais de miséria, de falta de saúde e educação sendo obrigados a deslocarem-se para centros industrializados em busca de trabalho para poderem sobreviver no mundo atual.

Cada vez mais, a pobreza surge aliada á exclusão digital, a par da fome e falta de poder económico. Para combater isto, os governos de diversos países estão hoje, mais do que nunca, empenhados em incluir o maior número de pessoas na sociedade digital, através do financiamento para a compra de computadores, criação de pontos de acesso á internet em zonas desfavorecidas, ou pela criação de cursos acessíveis às populações.  Com toda a informação a passar cada vez mais na rede, se um individuo estiver fora, está também automaticamente excluído dos fluxos principais de informação. As comunidades carentes, os mais pobres e pessoas com uma posição económica desprivilegiada são excluídas digitalmente, pois não tem acesso à tecnologia, o que leva a uma distribuição de riqueza e de oportunidades desigual.

Esta ordem de pensamento toca num ponto muito importante, dinamizador da nossa sociedade e economia e estreitamente ligado às novas tecnologias e aos benefícios que têm para oferecer – o mundo do trabalho. Não é novidade para ninguém que para se conseguir um emprego, já não é boa prática o envio de um currículo e carta de apresentação por correio para uma qualquer empresa. Esses tempos fazem parte do passado. O candidato a um posto de trabalho é constantemente desafiado a inovar e a apresentar as suas capacidades, valências e habilitações de forma mais criativa e distinta que conseguir, quer para se destacar, quer para poder convencer o empregador de que pode ser um elemento valioso na organização. E um dos pontos-chave na qual recai grande parte da decisão é precisamente o seu conhecimento nas tecnologias da informação. Se o candidato for aquilo a que se chama um “excluído”, então excluídas estarão á partida as possibilidades de contratação. O mundo do trabalho e o negócio dos empregadores estão totalmente informatizados e em constante evolução, exigindo também aos seus colaboradores um verdadeiro esforço na modernização e acompanhamento desta realidade, o que origina uma mão-de-obra polivalente, preparada e competente. Há quem acuse este processo de ter originado o aumento de desemprego que tem assolado as sociedades nos últimos anos. Por outro lado, a produtividade e desempenho das empresas com a informatização de dados e do negócio, permite uma maior e melhor contribuição económica e financeira para os países onde se inserem e por associação, a outros mercados interligados.

O mundo é hoje uma aldeia global, e nós podemos e sabemos beneficiar do muito que a tecnologia traz ao nosso quotidiano, facilitando a vida a vários níveis. Mas aquela que é a nossa realidade e que nos parece tão banal e simples é ainda uma miragem e uma impossibilidade para muitos.  A fronteira entre poder ter oportunidade de sucesso e tão simplesmente ter acesso a informação, é ténue mas decisiva para o futuro de cada um de nós. Dá efetivamente que pensar no papel que a globalização tem na nossa vida e a forma como nos pode aproximar ou afastar mas mais que tudo, enquanto vivemos no nosso mundo global, esquecemo-nos que do lado de fora existe uma outra realidade cada vez mais distante, mas que pode ser conhecida e está somente para nós á distância de um toque ou de uma pesquisa que podemos fazer no nosso smartphone. Essa disponibilidade de conhecimento pode dar-nos o poder de agir, pensar e reagir no sentido de aos poucos, e em conjunto, mudarmos e substituir aquilo que ainda precisa de ser melhorado e corrigido por forma a conseguirmos um verdadeiro mundo global onde todos possam ser incluídos plenamente e em igualdade.

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