Há um tipo de corrida que não se vê nos anúncios, nem nas keynotes. Vê-se nas encomendas de máquinas, nas contratações e, sobretudo, no nervosismo à volta de “quem fabrica onde”. E, neste momento, a Samsung parece ter decidido que já chega de andar a reboque. Não é só uma questão de orgulho industrial. É dinheiro, poder de negociação e… sim, inteligência artificial.
Porque quando se fala de IA, fala-se de NVIDIA quase por reflexo. E fala-se de GPUs, claro. Mas há um detalhe que anda a mandar nisto tudo: memória. Memória rápida, com largura de banda absurda, feita para alimentar modelos que não param de crescer. A Samsung está no centro dessa peça do puzzle com HBM4, e quer usar isso como alavanca para algo maior. Maior mesmo.
Neste artigo vão encontrar:
HBM4: a memória que está a puxar a indústria pela gola
O salto para HBM4 não é um “upgrade” simpático. É uma mudança que mexe com o calendário de plataformas de próxima geração, tanto da NVIDIA como da AMD, e até com os planos da própria Samsung no ecossistema. Dito assim parece simples: se forneces a memória certa, entras na conversa. Mas não é só isso.

A procura por HBM está a crescer a um ritmo que não perdoa. E quando a procura dispara, há dois efeitos quase automáticos: pressão na capacidade de produção e pressão nos preços. Já se fala na possibilidade de aumentos de preço significativos para este tipo de chips, precisamente porque a oferta não acompanha a fome do mercado. E aqui a Samsung tem um problema bom. Ou melhor, um bom problema: está a produzir HBM4, mas ainda assim não consegue satisfazer tudo o que os clientes querem.
Ao mesmo tempo, a empresa está a tentar virar a página de um período em que a concorrência nas memórias HBM foi particularmente agressiva. A SK Hynix ganhou terreno, dominou parte do mercado, e obrigou a Samsung a acelerar. Agora, com a nova geração, a coreana quer recuperar espaço e transformar isso em resultados. E os números apontados para os lucros do primeiro trimestre do ano, na ordem dos 38 mil milhões de dólares, são um sinal de que a máquina está a aquecer. Oito vezes mais do que no mesmo período do ano anterior, segundo a previsão avançada. Não é um detalhe. É um aviso.
Texas, 37 mil milhões e a obsessão pelo “made in USA”
Enquanto a conversa pública anda entre telemóveis e dobráveis, a Samsung está a preparar uma expansão industrial nos EUA que não é discreta. O plano passa por investir 37 mil milhões de dólares em solo norte-americano, com 17 mil milhões alocados à fábrica de Taylor, no Texas. E isto não é uma fábrica qualquer para “marcar presença”. A ambição é produzir chips avançados em 2 nanómetros.

Na prática, a localização importa tanto quanto a tecnologia. Os EUA estão a empurrar, com incentivos e com política, para que mais produção crítica aconteça no país. E há clientes que querem , ou vão precisar de querer , chips fabricados localmente. Tesla, Apple, NVIDIA, AMD. Nomes diferentes, a mesma preocupação: cadeias de abastecimento, risco geopolítico, conformidade com regras que mudam depressa. Muito depressa.
A fábrica do Texas deverá criar cerca de 1.500 empregos diretos, e a intenção passa por usar transístores com arquitetura gate-all-around. É aqui que a coisa fica interessante, porque esta arquitetura é uma das apostas mais claras para manter o ritmo de miniaturização e eficiência. Não é magia; é engenharia dura, com taxas de defeito, rendimentos por wafer, e meses de otimização. Mas é também uma forma de dizer ao mercado: estamos a jogar no topo.
Se tem acompanhado a escalada da IA e o impacto no hardware, vale a pena cruzar isto com o que tem acontecido do lado das plataformas e aceleradores. A pressão sobre fornecedores está a subir, e o ecossistema Android também sente o efeito indireto, nem que seja pela forma como a computação local e a cloud se estão a redesenhar. Aliás, a própria dinâmica de lucros e investimento no sector tem sido um tema recorrente, como se viu na análise aos resultados e ao “não rebentar” da bolha em NVIDIA e a bolha da IA, que continua a ser uma frase repetida, mas com consequências bem reais.
TSMC na mira: a batalha não é global, é territorial
Convém não romantizar: destronar a TSMC no mundo inteiro é outra conversa. A TSMC continua a ser o nome que aparece automaticamente quando se fala de fabrico avançado para Apple e NVIDIA. Só que a Samsung parece estar a apontar para um alvo mais específico. Os EUA.

Há relatórios que indicam que a Samsung já começou a produzir unidades de teste em 2 nm, com o objetivo de arrancar com produção em massa em 2027. Se isto acontecer como planeado, a Samsung pode ganhar uma vantagem temporal em território norte-americano, numa altura em que a TSMC está focada em nós de 2/3 nm na sua expansão local. Parece uma nuance, mas não é. Para alguns clientes, ser o primeiro a entregar volumes consistentes em 2 nm nos EUA pode ser o argumento que muda contratos.
E depois há a política. Não dá para contornar. A pressão para “fabricar nos EUA” tem sido reforçada, e empresas que queiram vender e operar sem fricção acabam por alinhar. A ironia é que, no terreno, quem está a fazer o investimento pesado são empresas estrangeiras. Samsung e TSMC. Não exatamente o resultado que muitos decisores políticos gostariam de ver, mas é o que está a acontecer.

Pyeongtaek, EUV e a parte menos falada: máquinas, não só chips
Enquanto o Texas ganha manchetes, a base industrial na Coreia continua a crescer. No campus de Pyeongtaek, a Samsung está a construir uma nova fábrica e encomendou 20 máquinas de litografia EUV, num negócio avaliado em quase 8 mil milhões de dólares. As máquinas são da ASML, como seria de esperar. E a estimativa é que a fábrica venha a ter 70 unidades no total para suportar a produção de memórias HBM4.
Este ponto é importante porque a conversa sobre semicondutores costuma parar no “nó” e no “nanómetro”. Mas o gargalo muitas vezes está na capacidade de equipar linhas, calibrar processos, repetir, ajustar, repetir outra vez. EUV não é apenas caro; é complexo, lento de escalar e dependente de uma cadeia que poucos dominam. Se quiser contextualizar o peso da ASML nesta equação e o que significa melhorar ainda mais as máquinas EUV, há uma leitura complementar em as novidades da ASML em EUV, porque esse avanço técnico tem impacto direto na capacidade de produção de toda a indústria, não só de um fabricante.
O “cavalo de Troia” e o plano de longo prazo: 1 nm em 2030
Há ainda uma camada que passa despercebida: a Samsung não quer apenas fabricar. Quer influenciar processos e acelerar desenvolvimento. A empresa é membro fundador do programa EPIC da Applied Materials, juntamente com a SK Hynix, numa tentativa de encurtar ciclos de desenvolvimento e ganhar vantagem também do lado das ferramentas e metodologias. Parece secundário, mas pode ser estrutural.
E depois vem a meta que soa quase provocatória: dominar a produção de chips de 1 nm até 2030. É um objetivo que, dito em voz alta, parece mais marketing do que calendário. Mas não é só isso. É uma forma de sinalizar ao mercado , e aos clientes , que a Samsung está disposta a investir para ficar na linha da frente, mesmo que o caminho tenha desvios, atrasos, ajustes. Vai ter, quase de certeza.
No fim, a Samsung está a jogar em várias frentes ao mesmo tempo: HBM4 para capturar a onda da IA, 2 nm nos EUA para pressionar a TSMC onde dói mais, e um reforço massivo de capacidade com EUV para não ficar sem fôlego. Se vai “destronar” a TSMC? A palavra é forte. Mas que está a tornar a corrida mais desconfortável, está. E isto, para o mercado, muda tudo… ou quase tudo. Depende de 2027, depende de yields, depende de clientes. Depende do tipo de detalhes que raramente chegam aos consumidores, mas que decidem o futuro de praticamente todos os dispositivos que usamos.
Entretanto, a corrida continua. Sem pausa. E com muito dinheiro em cima da mesa.
Leiam as últimas notícias do mundo da tecnologia no Google News , Facebook e X (ex Twitter) .
Todos os dias vos trazemos dezenas de notícias sobre o mundo Android em Português. Sigam-nos no Google Notícias. Cliquem aqui e depois em Seguir. Obrigado! |



