A Rússia não está apenas a lançar satélites para levar internet a zonas remotas. Dito assim parece direto, só que não é bem tão linear. Está a tentar fechar uma dependência estratégica que a guerra na Ucrânia expôs com brutal clareza: quem controla a conectividade orbital controla comunicações, logística, comando, propaganda e capacidade de resistir quando as redes terrestres falham ou são bloqueadas.
É neste contexto que surge o Rasvet, apresentado como a resposta russa ao Starlink. A comparação é inevitável, mas também pode ser enganadora. O projecto não parece nascer como um serviço global pensado para qualquer utilizador com uma antena no telhado. O objectivo mais evidente é outro: criar uma camada própria de comunicações por satélite, alinhada com os interesses do Estado russo e com cobertura prioritária do seu território.
O movimento ganhou peso depois de a Bureau 1440 ter colocado em órbita uma primeira leva de 16 satélites no final de Março, um passo que se enquadra como o arranque de uma rede de internet por satélite de nova geração, com promessas de até 1 Gbps por terminal e latência inferior a 70 milissegundos. São números ambiciosos. Também são, por enquanto, apenas parte da promessa.
Neste artigo vão encontrar:
O que muda na prática com o Rasvet
O ponto central não está só na velocidade anunciada. Parece simples. Mas nem sempre é assim. Está na autonomia. A Rússia quer uma rede capaz de continuar operacional mesmo num cenário de sanções, isolamento tecnológico, interferência electrónica ou quebra de infraestruturas terrestres. Depois de anos a ver a conectividade como serviço comercial, Moscovo está a tratá-la como uma peça de soberania digital.
Num cenário simples, imagina uma região remota no Árctico russo, uma instalação energética ou uma unidade militar deslocada para uma zona onde fibra, 4G e 5G não chegam de forma fiável. Uma rede como o Rasvet pode permitir comunicações persistentes sem depender de operadores estrangeiros, cabos internacionais ou plataformas sujeitas a decisões políticas fora de Moscovo. Para o cidadão comum, isto pode soar distante. Para um Estado, é uma diferença enorme.
Há também uma dimensão menos confortável: controlo. A empresa Bureau 1440 tem origem no ecossistema da MegaFon e está integrada na IKS Holding, grupo associado a sistemas de vigilância e gestão de tráfego na internet. Isto não significa que cada terminal Rasvet seja automaticamente uma ferramenta de vigilância, mas muda a leitura do projecto. Não estamos a falar apenas de levar internet a aldeias isoladas. Estamos a falar de uma infraestrutura que pode ser desenhada para obedecer a prioridades estatais, incluindo segurança, filtragem, resiliência e monitorização.

Comparar com Starlink faz sentido, mas só até certo ponto
Starlink tornou-se a referência porque já existe em escala. E aqui é que a coisa muda. A SpaceX opera milhares de satélites em órbita baixa e tem uma base real de utilizadores, terminais distribuídos e experiência acumulada em operações civis e militares. O Rasvet está numa fase muito mais inicial. Falar em “Starlink russo” ajuda a perceber a categoria, mas, na prática, pode exagerar a maturidade do projecto.
A Bureau 1440 terá como meta uma constelação de pelo menos 300 satélites até 2030, embora tenham circulado outras referências com cerca de 250 unidades em 2027 e mais de 900 em 2035. Mesmo no cenário mais optimista, a escala fica abaixo da rede de Elon Musk. E escala, neste tipo de serviço, não é detalhe técnico. Define cobertura, capacidade, redundância e qualidade real da ligação quando há muitos utilizadores em simultâneo.
Há ainda possíveis problemas industriais. Para que o Rasvet compense como infraestrutura nacional, a Rússia precisa de produzir, lançar e substituir satélites a um ritmo consistente. Isso exige cadeia de fornecimento, electrónica espacial, lançadores, estações terrestres e terminais em quantidade. Num país sujeito a sanções tecnológicas, este ponto pode pesar tanto como a própria engenharia orbital.
Para contexto, também vale a pena ler Starlink diz ter desviado 30 satélites após lançamento da Amazon acima do previsto.
Outro limite está no lado do utilizador. As informações disponíveis apontam para terminais maiores e mais pesados do que os do Starlink. Parece um pormenor, mas não é. Um terminal mais volumoso dificulta uso móvel, instalação rápida e distribuição em larga escala. Para uma casa fixa numa região isolada, pode ser aceitável. Para equipas no terreno, operações logísticas ou unidades que precisam de montar e desmontar comunicações depressa, cada quilo conta.
Se estás a acompanhar este tema, há contexto útil em Starlink continua cara: o preço real de levar internet ao céu.

A guerra da Ucrânia transformou satélites em infraestrutura estratégica
O Rasvet não aparece num vazio. Na prática, A utilização do Starlink na Ucrânia mostrou que a internet por satélite deixou de ser apenas uma alternativa para zonas sem fibra. Passou a ser uma ferramenta de continuidade operacional em guerra. Comunicações entre unidades, coordenação de drones, apoio logístico e ligação de serviços civis podem depender de uma rede que não passa por torres móveis destruídas ou cabos cortados.
Sobre este mesmo território, também analisámos China Revela Arma Revolucionária para Destruir Satélites.
Mais tarde, a própria linha da frente tornou a questão ainda mais cinzenta, com relatos sobre forças russas a usarem terminais Starlink em território ucraniano, um episódio que a Ars Technica acompanhou e que ilustra bem a dificuldade de controlar uma tecnologia comercial quando entra num teatro de guerra. Para Moscovo, depender directa ou indirectamente de uma rede ocidental neste tipo de contexto é uma fragilidade óbvia.
Daí a lógica do Rasvet como escudo digital. Não no sentido de tornar a Rússia imune a ataques ou bloqueios, porque nenhuma constelação faz isso sozinha, mas como uma camada adicional de resiliência. Se redes terrestres forem interrompidas, se fornecedores estrangeiros deixarem de operar ou se a conectividade internacional for limitada, uma constelação própria dá margem de manobra.
A órbita escolhida diz muito sobre a prioridade russa
Um dos detalhes mais importantes é a inclinação orbital de 81,4 graus, praticamente polar. Ou melhor, Ao contrário de redes desenhadas sobretudo para maximizar cobertura sobre zonas densamente povoadas, esta configuração favorece o acesso a latitudes elevadas e regiões extremas. Para a Rússia, isto faz sentido: o país tem uma geografia enorme, zonas remotas, infraestruturas energéticas dispersas e interesses militares no Norte.
Este desenho reforça a leitura de que o Rasvet vale mais como ferramenta nacional do que como rival comercial imediato do Starlink. Pode até vir a vender serviços a empresas ou utilizadores específicos, mas a sua utilidade mais forte parece estar em ligar território, Estado e sectores estratégicos.

Vale a pena olhar para isto sem entusiasmo fácil. O Rasvet mostra ambição, mas ainda não prova execução. Prometer 1 Gbps e baixa latência é uma coisa; manter serviço estável, com cobertura ampla, terminais acessíveis e capacidade suficiente é outra. A internet por satélite moderna vive dessa diferença entre demonstração técnica e operação diária.
Mesmo assim, o sinal político é claro. A corrida já não é apenas SpaceX contra Amazon, nem apenas empresas a disputar clientes em zonas sem fibra. A conectividade orbital está a transformar-se numa camada de poder nacional. E, se o Rasvet avançar para além dos primeiros satélites, a pergunta deixa de ser apenas se consegue competir com o Starlink. Passa a ser que tipo de internet um Estado quer controlar quando decide construir a sua própria rede no espaço.
Leiam as últimas notícias do mundo da tecnologia no Google News , Facebook e X (ex Twitter) .
Todos os dias vos trazemos dezenas de notícias sobre o mundo Android em Português. Sigam-nos no Google Notícias. Cliquem aqui e depois em Seguir. Obrigado! |



