Quando a Google iniciou a transição para o Manifest V3 em junho de 2024, a comunidade tecnológica entrou em estado de alerta. O receio era unânime: a nova arquitetura das extensões do Chrome parecia desenhada para asfixiar os bloqueadores de anúncios, protegendo o modelo de negócio publicitário da gigante de Mountain View. No entanto, um estudo independente da Universidade Goethe de Frankfurt, recentemente publicado, traz conclusões surpreendentes que contrariam as previsões mais pessimistas. Ao que parece, os adblockers não só sobreviveram, como em alguns aspetos estão a funcionar melhor do que nunca.
Neste artigo vão encontrar:
O mito do “Adblocker Killer” desmentido pela ciência
O estudo académico, revisto pelos pares e publicado no prestigiado periódico Proceedings on Privacy Enhancing Technologies, analisou a eficácia das extensões de privacidade sob a nova arquitetura MV3 comparando-a com a antiga MV2. Ao contrário do que se esperava, os investigadores Karlo Lukic e Lazaros Papadopoulos concluíram que não existe uma redução estatisticamente significativa na eficácia do bloqueio de publicidade. Na verdade, os resultados mostram que o desempenho de ambas as arquiteturas é praticamente idêntico.
No seu interior, o Manifest V3 até revelou uma vantagem inesperada: a proteção contra rastreadores (trackers). O estudo apurou que as versões MV3 conseguem bloquear, em média, mais 1.8 scripts de rastreio por website do que as versões antigas. Isto acontece porque o novo sistema é mais rígido e impõe regras que tornam mais difícil para os scripts invasivos operarem em segundo plano sem serem detetados pelo navegador.

Mudança de paradigma: Do “Cérebro” para o “Braço Executor”
A grande diferença técnica entre o Manifest V2 e o V3 reside na forma como o tráfego é processado. No padrão antigo, a extensão examinava o tráfego de rede em tempo real e decidia o que bloquear. Era um sistema flexível, mas que podia tornar a navegação lenta e comprometer a segurança, já que a extensão tinha acesso total aos dados do utilizador. Com o MV3, a extensão fornece uma lista de regras à Google Chrome e é o próprio navegador que executa o bloqueio.
Esta mudança para a API declarativeNetRequest (DNR) retira flexibilidade aos programadores, mas torna a execução muito mais fluida. Como é o navegador a fazer o “trabalho sujo”, o impacto na performance é menor e a privacidade do utilizador face a extensões maliciosas aumenta. O estudo sugere que os criadores de extensões populares, como o AdGuard ou o uBlock Origin Lite, fizeram um trabalho notável ao adaptar os seus filtros complexos para o novo formato exigido pela Google, mantendo a proteção quase intacta.
As limitações que ainda preocupam
Apesar das conclusões positivas do estudo da Universidade de Frankfurt, nem tudo são boas notícias para os utilizadores avançados. O Manifest V3 impõe um limite no número de regras que cada extensão pode utilizar (atualmente fixado em cerca de 30.000 regras estáticas por extensão, com um limite global maior). Isto pode ser um entrave para utilizadores que gostam de acumular dezenas de listas de filtros personalizadas.
Além disso, o novo sistema é menos dinâmico. No MV2, um bloqueador podia atualizar as suas regras instantaneamente para contornar uma nova técnica de publicidade do YouTube ou do Facebook. No MV3, muitas destas atualizações exigem uma revisão completa da extensão na Chrome Web Store, o que pode atrasar a resposta dos programadores a novas formas de anúncios invasivos. Esta é uma “letra pequena” que o estudo reconhece, notando que a eficácia atual é uma fotografia do momento e que a Google mantém o poder de alterar as regras do jogo no futuro.
Conclusão
A guerra da Google contra os bloqueadores de anúncios parece ter resultado num empate técnico onde o utilizador comum sai a ganhar em segurança e fluidez. O estudo da Universidade de Frankfurt deixa claro que, para o utilizador médio, a diferença entre usar um bloqueador no Chrome ou no Firefox é agora impercetível. A “morte dos adblockers” foi manifestamente exagerada, provando que a capacidade de adaptação dos programadores e a pressão da comunidade académica e de privacidade conseguiram moldar o Manifest V3 para algo muito mais equilibrado do que a proposta inicial da Google deixava antever.
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