A tensão entre os gigantes de Hollywood e as empresas tecnológicas atingiu um novo pico esta semana. A Walt Disney Company enviou uma dura carta de cessar e desistir à ByteDance, a empresa-mãe do TikTok, acusando a sua nova ferramenta de inteligência artificial generativa, a Seedance 2.0, de cometer um verdadeiro “assalto virtual” (virtual smash-and-grab) à sua propriedade intelectual. A acusação é clara: a Disney afirma que a ByteDance utilizou ilegalmente uma biblioteca pirata de personagens protegidos por direitos de autor para treinar os seus modelos de vídeo.
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Seedance 2.0: O novo pesadelo de Hollywood
Lançada oficialmente na passada quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, a Seedance 2.0 tornou-se rapidamente viral devido à sua capacidade de gerar vídeos hiper-realistas a partir de simples comandos de texto. No entanto, o entusiasmo tecnológico foi prontamente atropelado pela indignação dos estúdios. Poucas horas após o lançamento, as redes sociais inundaram-se de vídeos criados pela ferramenta que mostravam personagens icónicas como Darth Vader, Spider-Man, Grogu (Baby Yoda) e até Peter Griffin, de Family Guy, em cenários inéditos e não autorizados.
Na carta obtida pela Axios e enviada ao conselheiro geral global da ByteDance, John Rogovin, os advogados da Disney foram implacáveis. Afirmam que a ByteDance está a “sequestrar” personagens da Marvel e da Star Wars, tratando-os como se fossem “clip art de domínio público”. Para a Disney, o facto de a Seedance 2.0 conseguir reproduzir estas figuras com tamanha precisão é a prova inequívoca de que o modelo foi treinado com conteúdos protegidos sem qualquer tipo de licenciamento ou compensação.

O apoio da indústria e a revolta dos atores
A Disney não está sozinha nesta luta. A Motion Picture Association (MPA) e o sindicato de atores SAG-AFTRA já emitiram comunicados de condenação. Charles Rivkin, CEO da MPA, classificou a atividade da Seedance como uma infração de direitos de autor em “escala massiva”, criticando a falta de salvaguardas da ferramenta. Por sua vez, o SAG-AFTRA, agora presidido por Sean Astin (que curiosamente foi alvo de um deepfake viral na plataforma ao lado de Elijah Wood), classificou a situação como “inaceitável”, sublinhando que a utilização não autorizada de vozes e aparências de atores destrói a subsistência dos talentos humanos.
O impacto da Seedance 2.0 foi tão profundo que até profissionais do setor, como o argumentista de Deadpool & Wolverine, Rhett Reese, admitiram estar “chocados” com a qualidade das imagens geradas, nomeadamente num vídeo de luta entre versões digitais de Tom Cruise e Brad Pitt que circulou intensamente online. No seu interior, a ferramenta parece não possuir filtros eficazes para impedir a criação de conteúdos baseados em marcas registadas ou figuras públicas, o que a coloca em rota de colisão direta com a legislação de direitos de autor dos EUA.

A estratégia de licenciamento vs. a pirataria
É importante notar que a Disney não é contra a inteligência artificial por princípio. Recentemente, a empresa celebrou um acordo histórico de licenciamento de três anos com a OpenAI, permitindo que os modelos desta última utilizem personagens do universo Disney sob condições controladas e mediante pagamento. Esta parceria estratégica contrasta fortemente com a abordagem da ByteDance, que a Disney descreve como uma apropriação indevida e deliberada.
Este não é o primeiro “aviso” da casa do Rato a empresas de tecnologia. Em dezembro de 2025, a Google recebeu uma queixa semelhante, o que levou a gigante de Mountain View a restringir os prompts que envolviam personagens da Disney nas suas ferramentas Gemini e Nano Banana. A Disney também moveu ações contra a Character.AI, Meta, Midjourney e MiniMax, sinalizando uma postura agressiva de proteção dos seus ativos digitais num mundo onde a IA pode replicar décadas de investimento criativo em milissegundos.
Conclusão
O caso Seedance 2.0 marca um ponto de viragem na regulação da IA generativa. Enquanto modelos como o Sora, da OpenAI, procuram parcerias legais com os detentores de direitos, a ByteDance parece ter optado por um caminho mais arriscado, que a Disney considera ser um ataque direto à cultura e à indústria criativa. Com o apoio dos sindicatos e de outros estúdios de Hollywood, é muito provável que este “assalto virtual” acabe por ser resolvido nos tribunais, definindo os limites éticos e legais para o treino de modelos de vídeo no futuro.
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