A Apple voltou a estar no centro de um escândalo de privacidade. Desta vez, a marca da maçã enfrenta uma investigação criminal em França sobre alegadas gravações de voz realizadas pelo assistente virtual Siri sem o devido consentimento dos utilizadores. O caso, confirmado pelo procurador de Paris no dia 6 de outubro, foi encaminhado ao Gabinete de Combate aos Crimes Cibernéticos, levantando sérias questões sobre os limites da recolha e utilização de dados pessoais.
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Como começou a polémica
Tudo começou com uma queixa apresentada pela organização de direitos humanos francesa Ligue des Droits de l’Homme. A denúncia baseia-se no testemunho de Thomas Le Bonniec, um ex-subcontratado da Apple que, em 2019, trabalhou para a Globe Technical Services, parceira da gigante tecnológica na Irlanda.
Le Bonniec afirmou ter tido acesso a milhares de gravações do Siri, muitas vezes captadas de forma involuntária, que incluíam conversas privadas, dados pessoais sensíveis e até informações potencialmente identificáveis. Segundo ele, esse material era analisado por equipas humanas com o objetivo de “melhorar” a qualidade do assistente de voz.
A questão é simples mas preocupante: até que ponto os utilizadores tinham conhecimento — e deram consentimento — para que a sua privacidade fosse exposta a estranhos?

Escândalo de privacidade à escala global
Este não é o primeiro episódio em que a Apple vê o seu nome associado a problemas de privacidade ligados ao Siri. Le Bonniec já tinha alertado reguladores como a CNIL em França e a Comissão de Proteção de Dados da Irlanda sobre estas práticas. No entanto, até agora, os seus avisos não tinham resultado em investigações formais.
A situação ganha agora contornos mais sérios, uma vez que a investigação francesa procura determinar se houve recolha e tratamento de dados sem base legal ou consentimento claro. Para uma empresa que sempre construiu a sua imagem em torno da proteção da privacidade, esta é uma acusação que atinge diretamente a credibilidade da Apple.
A resposta da Apple
Perante a controvérsia, a Apple recusou-se a comentar o caso específico. Contudo, remeteu para um comunicado publicado em janeiro, no qual reitera que não guarda gravações do Siri a não ser que os utilizadores optem explicitamente por isso.
Segundo a Apple, as amostras de áudio são usadas apenas para melhorar o desempenho do Siri e nunca são partilhadas com anunciantes ou terceiros com fins de marketing. A empresa recorda ainda que, desde 2019, reforçou os controlos de privacidade e que em 2025 implementou novas medidas de proteção dos dados dos utilizadores.
Apesar destas garantias, a investigação francesa sugere que os reguladores não estão totalmente convencidos.

Possíveis consequências legais
A queixa apresentada em França já deu origem a uma ação coletiva contra a Apple. O processo segue o exemplo de um caso semelhante nos Estados Unidos, que terminou com um acordo de 95 milhões de dólares em 2024, ainda que sem a empresa admitir qualquer prática ilícita.
Se os procuradores franceses concluírem que houve infrações à lei, as consequências para a Apple poderão ser severas, incluindo multas avultadas e danos reputacionais difíceis de recuperar.
O futuro do Siri em cheque?
Para já, o rumo da investigação permanece incerto. O Gabinete de Combate aos Crimes Cibernéticos não divulgou detalhes sobre o alcance do processo nem sobre os próximos passos.
No entanto, este caso coloca novamente em cima da mesa uma questão crucial: até onde estão as grandes tecnológicas dispostas a ir na recolha de dados para melhorar os seus serviços de inteligência artificial?
Com a privacidade a tornar-se um dos temas mais sensíveis da era digital, a Apple terá de provar mais uma vez que o seu famoso slogan “What happens on your iPhone, stays on your iPhone” não é apenas marketing, mas uma realidade respeitada.
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